“Onde a terra começar, vento negro gente eu sou, onde a terra terminar, vento negro eu sou…”. Os leitores, possivelmente, já ouviram e cantarolaram esses versos. Eles são da música Vento Negro, composta por José Fogaça, canção que já ultrapassou décadas e gerações e, mesmo longeva, segue sempre atual.
A história da música surgiu no começo da década de 70. Fogaça, com seus 20 e poucos anos, carregava inquietudes. Sonhava com liberdade. Um novo tempo com novos ventos. Um horizonte de renovação e mudança.
O Brasil, nessa época, vivia o período militar. A criação artística era monitorada. Por isso, pertinente se fazia medir o que era escrito. Ter cuidado com as palavras. Foi nesse contexto que o jovem idealista, então estudante de Direito na PUCRS, criou Vento Negro, uma música que expressava seu sentimento e seus anseios, e que viria a se tornar uma das canções mais conhecidas e emblemáticas da cultura gaúcha.
A composição surgiu despretensiosa. Foi apresentada pela primeira vez em 1971, no festival Musipuc, terminando em 4º lugar. Alguns anos depois, em 1975, o grupo Almôndegas, composto por Kleiton, Kledir, Pery Souza, Quico e Gilnei, lançou o primeiro disco, incluindo Vento Negro no repertório. A partir dessa gravação, a música decolou para um voo permanente.
De lá para cá, são mais de 60 regravações, com destaque para cantores como Fafá de Belém, Kleiton e Kledir, Oswaldir e Carlos Magrão, Neto Fagundes, Délcio Tavares e Wilson Paim. São diferentes arranjos e interpretações, que confirmam a universalidade e a força da obra.
Vento Negro evoca transformação, um canto de luta sem guerras e sem mortes, simbolizando esperança na vida das pessoas. Uma composição que remete à reflexão, e que anseia ser ouvida “em todo o meu país”.
A história da música me foi contada pelo próprio autor, José Fogaça. Conversamos recentemente num evento musical e literário, na cidade de Restinga Sêca. Eu participava como jurado de um festival de músicas. Ele como Patrono da Feira do Livro. Contou-me um pouco do surgimento e da trajetória de Vento Negro, bate-papo que estendemos, posteriormente, pelo whatsapp e que originou esta coluna.
José Fogaça foi professor de literatura em cursinho Pré-Vestibular e, mais tarde, a convite de Pedro Simon, adentrou para a política, tendo sido eleito para mandatos de deputado estadual, deputado federal constituinte e senador em duas oportunidades. Também foi prefeito de Porto Alegre por duas vezes.
Homem de variadas facetas e relevante contribuição social e cultural, carrega um pensamento de vida baseado em liberdade, amor e paz. E foi através da força da sua música que externou seu sentimento e seu desejo para a humanidade. Tudo resumido nos versos e na melodia de Vento Negro. Uma canção atemporal. Uma música universal.