É uma pena que a expressão “boca-de-urna” tenha recebido, ao longo dos anos, uma conotação pejorativa, algo similar, se considerarmos o sentido estrito da anatomia, a “bocasuja”, “boca-maldita”, “bocaaberta”. Tendo recebido a incumbência de designar uma ação condenável, “bocade-urna” passa a imputação criminosa para quem é flagrado em sua prática proscrita. Foi atenuada, nas últimas décadas, com um tipo de opinião pública feita ali, no calor da hora, ao final da votação. Em tempos de negacionismo de toda ordem, em que a própria urna eletrônica tem sido posta em suspeição, tenho pra mim que, no regime democrático, ela deveria ser o símbolo de normalidade. Da saúde bucal da urna é que se consolida a vida republicana. Para mim, a expressão figurada poderia ter um sentido mais elevado, para tratar da maturidade democrática. Da boca da urna poderia sair a verdadeira voz do povo, que popularmente se associa à de Deus. Ou seja, numa democracia representativa, da boca da urna é que deveria sair a palavra final para o ingresso no paraíso.

A urna eletrônica nos orgulha pelo seu pioneirismo e indicação de progresso. Mesmo que este avanço tecnológico tenha eliminado, concretamente, a ideia de boca – sugerida pela fenda na qual se introduzia a cédula nas ultrapassadas urnas de lona –, perdura no imaginário geral a sua antiga acepção. Tanto é assim, que a mídia, a justiça eleitoral e a militância política tratam os atos nas cercanias da urna com a designação citada.

Embora sejamos uma estadonação sem a tradição no processo civilizatório que caracteriza os povos europeus e asiáticos, tornamo-nos república na esteira dos processos ocorridos nos EUA e na França, apenas um século depois. Aliás, nossa vida republicana começou antes da Alemanha e da Itália passarem de monarquias para estados republicanos. Desde o século XIX, temos tido um processo de desenvolvimento – econômico, social e cultural – muito acidentado e cheio de percalços. Acelerado pela vinda da corte de D. João VI, em 1808, o processo democrático, entretanto, teve um longo período de marchas e contramarchas, saltos e sobressaltos. Já em meados do século passado, veio a estagnação, com o golpe militar de 1964, o qual durou 21 anos. Isso quer dizer, ainda estamos aprendendo a viver no pleno estado de direito, em que ao povo se concede todo o poder de decisão.

Vai daí que estou entre aqueles que se alegram em poder ouvir alguma coisa vinda da boca da urna. Se à boca da urna se concede a palavra e ela pronuncia algo, isso me soa como alento, como indicativo seguro da saúde da nossa democracia. A mim desagrada a possibilidade de que se dê um “cala-a-boca da urna”. Estou entre os que ainda esperam ouvir da boca da urna os melhores vaticínios sobre o nosso futuro. Mesmo que estejam entre os eleitos alguns bizarros, alguns aproveitadores, alguns sem-noção, estou consciente de que estamos aprendendo e, com o tempo, saberemos distinguir o joio – ou a joia – do trigo. Por enquanto, estou satisfeito que a urna esteja falando com a bocacheia. Chegaremos ao tempo em que ela falará como boca-santa.