Precisamos falar sobre ciúme, posse, frustração, respeito, rejeição e sobre formas saudáveis de lidar com o fim de uma relação. Precisamos, sobretudo, aprender a lidar melhor com os conflitos inerentes às relações humanas. Divergências, perdas e rupturas sempre existirão. O desafio está em impedir que essas experiências sejam convertidas em controle, intimidação ou agressão. Se quisermos mudar essa realidade, precisamos chegar antes da ruptura: antes da ameaça, antes da agressão, antes da sirene, antes da medida protetiva, antes da prisão. O avanço das leis e das decisões dos tribunais é fundamental e deve continuar. Mas talvez a verdadeira transformação aconteça quando conseguirmos fazer com que menos mulheres precisem recorrer a elas. Uma sociedade não deveria considerar vitória apenas o fato de possuir mecanismos cada vez mais eficientes para proteger uma mulher depois que ela passa a correr perigo. A verdadeira vitória será construir relações nas quais ela não precise temer quem está ao seu lado. O maior êxito no enfrentamento à violência contra a mulher não será termos cada vez mais medidas protetivas ou prisões. Será construirmos uma sociedade em que cada vez menos mulheres precisem delas.
É nesse ponto que a prevenção precisa ganhar outro significado. Não basta ensinar onde denunciar depois que a violência aconteceu. É preciso ensinar a reconhecê-la antes. Na Alemanha, o estudo do nazismo e do Holocausto integra obrigatoriamente a formação escolar. Evidentemente, não se trata de comparar fenômenos tão distintos. A reflexão está na estratégia: conhecer e compreender os mecanismos que produziram acontecimentos graves também é uma forma de trabalhar para que não se repitam.
Precisamos ampliar, em nossa realidade, a educação para os relacionamentos. Desde cedo, jovens precisam compreender que ninguém é dono de ninguém; que amor não combina com controle; que términos doem e frustrações fazem parte da vida, mas nenhuma delas autoriza violência. Precisam também aprender a reconhecer os primeiros sinais de uma relação abusiva e saber onde buscar ajuda.
Isso exige mais do que editar novas leis, aumentar penas ou lançar campanhas em determinadas épocas do ano. Exige trabalho permanente, educação e espaços de diálogo. E exige conversar com mulheres, jovens e, principalmente, homens.
Nas palestras e cursos que ministro sobre o tema, o público feminino costuma ser ampla maioria. Mas os homens precisam estar nessa conversa. Quando discutimos violência contra a mulher, não faz sentido que justamente eles permaneçam distantes do debate preventivo.
FELIPE STAUB CANO Delegado de polícia
