Por Graziela Miolo, psicóloga, psicanalista, sócia-fundadora da Miolo e Rosinski – Psicologia e Psicanálise

"A esperança é um motor que sinaliza que se deseja continuar, em movimento. Por isso, como diria Paulo Freire, ela é ato, e não sentimento."

Que movimento seria possível na existência humana sem que se vislumbre um horizonte de expectativas, desejos, anseios e até angústias? Basta pensar no final de um dia extenuante. Aquele dia em que o cérebro foi amassado pelas exigências da vida, dando a sensação de que o corpo não é mais capaz de se mover, de tanto peso que recai sobre os ombros. Todos nós já tivemos um dia (ou muitos) assim! Qual a alternativa para lidar com isso? Descansar, e vislumbrar o final daquela pressão, reconhecendo uma brecha: amanhã é um novo dia!

O amanhã é nada mais do que a aposta na esperança (que é o oposto de ilusão). O imaginar de que a luz do outro dia pode nos ajudar a varrer a poluição mental, e construir caminhos alternativos para que possamos nos mover para longe daquele precipício que parece bordejar mesmo as paisagens mais bonitas. Se essa ideia de amanhã não se realiza, mesmo que não seja uma certeza (e afinal o que é ter certeza na vida?), não são apenas as ideias que se perdem. É o próprio corpo que perde a ilusão de mover-se. E quem não se move, não vive.

Para existirmos no hoje é importante imaginarmos que queremos e podemos viver um amanhã, e que, se possível, ele seja um tantinho melhor que hoje, a partir das nossas escolhas. O nome disso é esperança (e não ilusão). A esperança é um motor que sinaliza que se deseja continuar, em movimento. Por isso, como diria Paulo Freire, ela é ato, e não sentimento.

Vale lembrar que o oposto da esperança não é necessariamente o ato de desistir, mas sim o sentimento de desesperança. E ele se apresenta sordidamente, por vezes de maneira perversa. Silenciosamente entra na sala, senta-se no sofá e toma o chimarrão ao final do dia, sem nem notarmos sua presença. É o cansaço de pensar, é a desistência de falar, é o questionamento de se vale a pena investir mais um pouco. Seja em alguém ou em uma situação. É não discutir ou pensar.

A desesperança desatualiza a vida. Ela achata. Oprime. Paralisa a capacidade de construir pontes e criar outras estruturas de pensar.

Poderíamos afirmar que em nossa política de afetos particulares a desesperança nada mais seria do que a abstenção em uma eleição. Aquele ato de desistir de tentar. De "jogar a toalha", e por isso, ser atravessado pela possibilidade de estar alienado do que pode decidir o conduzir da vida.

Por certo, o ato de ter esperança em uma escolha nem sempre vem munido de convicções. Ainda mais quando os precipícios podem ao final do percurso gerar a surpresa de estarem misturados.

No entanto, ainda assim, escolher é um ato de aposta, que gera movimento.

Mesmo que as escolhas não sejam convictas. Mesmo que as dúvidas sejam quase sinônimo de dívidas, ainda assim escolher entre fugir de um precipício ou simplesmente se entregar às pontes que nos levam a eles parece ser o caminho que pode nutrir e retroalimentar alguma dose de esperança. Se não a esperança no amanhã, mas na ideia de que algum dia o amanhã pode novamente acontecer.

Que a luta pela esperança seja um ato, mesmo que equilibrista!